A primeira fase da Copa de 2010 assistimos alguns jogos em Halmstad (Suécia) e outros em Copenhagen (Dinamarca). Nos dias de jogos do Brasil nós desfilávamos com a bandeira nacional. Tiramos onda com muita gente, afinal somos penta campeões. Torcemos muito e nos divertimos pra valer!
Após a Maratona de Estocolmo, como bom maraturista, saí para fazer turismo com meus amigos Mara, Sven e Andreas. Na cidade de Copenhagen, na Dinamarca, fomos ao Tivoly Park, famoso parque de diversões do norte da Europa.
Particularmente, não gosto desses brinquedos de parques de diversões. Tenho pavor de altura e de alta velocidade. É muita adrenalina para o meu pobre coração. Mas diante da possibilidade de novas experiências e de muita insistência dos meus amigos resolvi encarar essa aventura.
Consegui ir em três “brinquedinhos”, mas deu uma suadeira enorme, as pernas ficaram trêmulas, estava apavorado e resolvi desistir. Estava com um passaporte que dava acesso livre a todo o parque, entretanto, essas emoções não combinam comigo.
Uma dos momentos mais marcantes de toda essa aventura foi a minha chegada na Maratona de Estocolmo. Talvez, pelo fato da dificuldade que foi em completá-la tenha dado um sabor de vitória, de conquista, de dever cumprido. Correr os 15 km finais com dores musculares intensas e câimbras foi um momento único de superação pessoal, determinação e um pouco de “loucura” também. Mas diante de uma dificuldade extrema consegui buscar forças, reagi e cumpri com o que havia planejado. Com a dor e o sofrimento temos uma idéia diferente de nós mesmos e terminar a prova nessas circunstâncias nos torna uma pessoa diferente e isso é pra vida toda. Hoje, quando relembro desses momentos, o que vem à cabeça não é a intensidade do sofrimento, mas minha capacidade em suportá-la.
Não canso de ver esse vídeo, principalmente nos momentos de dificuldade. Ele virou uma espécie de mantra, com poder restaurador, me dá forças e melhora minha autoestima.
No horário da largada o termômetro marcava 18 graus e o Sol estava presente, mas o vento frio dava uma sensação térmica de temperatura mais baixa. O clima estava agradável para correr.
Pontualmente, às 14h, foi dada a largada. Passei pelo pórtico e acionei o Garmin. Nos quilômetros iniciais mantive o ritmo planejado. Estava me sentindo bem, mas não forcei, tinha muito “chão” pela frente. Passei no primeiro posto de água, mesmo sem sede, apanhei um copo. Desviava do chuveiro, não queria encharcar o tênis e causar bolhas nos pés.
A cada quilômetro, conferia o tempo no relógio e comparava com a tabela, que tinha o planejamento de tempo, para cada quilômetro. Passei no km 5 com o tempo de 27min52s, média de 5min34s/km. Vinte e dois segundos acima do que havia planejado para essa distância (27min30s). Consumi o primeiro gel de carboidrato no km 8. Continuei mantendo o ritmo, que teve quebra na passagem pelos postos de hidratação. Os postos eram curtos e acumulava muita gente, ocasionando a formação de filas. Acontecia a mesma coisa nos postos com isotônico.
No km 10, o relógio marcava 57min04s. Havia programado passar nessa distância com 55min30s. Estava 1min34s acima do tempo estabelecido. O ritmo passou para 5min42s/km. Isso deve ter ocorrido por conta do atraso nos postos de hidratação e de isotônico. Mas estava bem fisicamente e isso me deixava tranqüilo. No km 15, o garmin marcava 1h25min46s. Houve uma queda no rendimento, pois o ritmo caiu, o pace passou a ser de 5min43s/km. Ingeri o segundo gel de carboidrato no km 16.
Completei a metade da prova com o tempo de 1h59min19s. Apesar de estar acima do planejado (1h50min), meu corpo respondia bem ao esforço e poderia reduzir o tempo, a partir do km 30, como sugeriu o Adriano (técnico). O pace seguiu em 5min42s/km. No km 22, ingeri o terceiro gel de carboidrato e ainda, resistia em não passar pelos chuveiros. A respiração estava boa e controlada.
No km 25, senti os primeiros espasmos na musculatura da panturrilha. Imediatamente ingeri um sachê de 1g de sal. A dor aliviou em poucos quilômetros. Passei, nessa distância, com pace de 5min42s/km, estabelecendo 2h22min43s. Percebi que as pessoas também começaram a sentir câimbras, muitas caminhavam e outras paravam para alongar a musculatura das pernas. Dois quilômetros após a ingestão do sal, as dores passaram e continuei firme tentando retomar o meu ritmo. No km 28 ingeri o quarto gel de carboidrato. No 30, as câimbras retornaram mais intensas. Ingeri novamente sal e parei no posto de emergência para massagens. Voltei andando e depois retomei a corrida. Apesar disso, passei com o tempo de 2h53min52s, com ritmo de 5min47s/km. No km 34 ingeri o quinto gel de carboidrato e bananas oferecidas pela organização.
As dores se intensificaram e diminui o ritmo. Quando atingi o km 35, o Garmin marcava 3h27min18s, média de 5min55s/km. Passei no posto de emergência e parei novamente para massagens. As dores eram insistentes e não paravam. Decidi que só pararia se a musculatura não agüentasse. A preocupação era completar a prova. Resolvi não olhar no cronômetro e administrar a corrida, de acordo com minhas possibilidades físicas, sem pensar em tempo. No km 40, ingeri o sexto gel de carboidrato e comi uma banana. Estava com pace de 5min59s/km e tempo de 3h59min29s. As dores estavam insuportáveis. Parei e alonguei, mas nessa altura da prova, já não fazia mais efeito. Vi que não tinha mais jeito, as dores iriam permanecer. A opção era desistir ou se arrastar, se fosse o caso, até a chegada. Optei por continuar correndo e quando avistei o estádio olímpico, uma sensação de alívio tomou conta do meu corpo. Abri a bandeira do Brasil e amarrei-a no pescoço. Busquei forças nos incentivos do povo na rua e continuei mesmo com as dores intensas.
Entrei no estádio olímpico e me arrepiei com a presença das pessoas gritando, incentivando… Ao me aproximar da linha de chegada ouvi o Sven e a Mara agitados e gritando o meu nome. Vibrei muito! Retirei a bandeira do pescoço e levantei para passar pelo pórtico, com tempo final de 4h12min55s, média 5min59s/km e velocidade média de 10km/h.
Na sexta-feira (04/06/2010), véspera da prova. Não dormi bem. Passei mal, com fortes dores estomacais, diarréia e vômito. Tomei antibióticos e fiquei de molho no hotel. Ingeri bastante água e procurei fazer uma refeição à base de salada, batata e peixe.
Foi uma situação inusitada. Passei nove meses treinando e corria o risco de não participar da maratona. Na verdade, não estava nos planos não participar da prova, entretanto, a situação exigia cuidados.
Utilizei a sexta-feira para descansar e dispensei o passeio pela cidade de Estocolmo. No sábado, pela manhã, fiz uma avaliação e defini pela participação na prova.
No início resistia aos pratos que eram oferecidos. Procurava fazer refeições bem próximas das que consumia no Brasil. O receio era de meu organismo não suportar e reagir de forma desagradável. O que de fato aconteceu na véspera da maratona.
Entretanto, o período pós-corrida foi de degustação. Experimentei vários tipos de comidas, fazendo uma espécie de tour culinário, conhecendo pratos da cozinha de vários países.
Uma coisa curiosa sobre a cozinha sueca é a substituição do arroz pela batata. Qualquer prato que você peça, seja peixe, carne, vem acompanhado de batata frita, cozida ou purê. O fato é que depois da maratona engordei 4 kg. Haja comida.
A diferença de fuso horário da Suécia em relação ao Brasil é de 5 horas. Não chega a incomodar. Comecei o processo de adaptação durante o voo. Adiantei o relógio e comecei a fazer as refeições já no horário sueco, mesmo sem estar com fome.
O problema dos primeiros dias que incomodou e atrapalhou o sono era a presença do Sol. Como estávamos no verão, os dias eram mais longos que as noites. O pôr do Sol se dava às 21 horas e às 4 da manhã já estava claro. E ao longo dos dias esse horário aumentava. Próximo da viagem de retorno isso estava ocorrendo às 23h.
Meu relógio biológico demorou a acertar os ponteiros. A constatação é que utilizamos a noite para indicar a hora de dormir e o dia, para acordar. As primeiras “noites” de sono, apesar do cansaço da viagem, não foram agradáveis.
O lado positivo disso é que se ganha mais tempo para fazer turismo.
Saí de São Paulo no dia 31 de maio na companhia do Sven e da Mara com destino a Copenhagen. Após 12 horas de voo, já no dia primeiro de junho, fizemos uma conexão em Paris. Lá passamos pelo rigoroso Serviço de Imigração, após uma extensa e demorada fila. Depois disso, tivemos ainda que enfrentar a alfândega no embarque para Copenhagen. Tirar o casaco, tênis, apresentar o notebook, passar pelo raio X, abrir a bagagem de mão e explicar o que continham os recipientes dentro dela.
De Paris até Copenhagen foram mais 45 minutos de voo. No aeroporto de Copenhagen pegamos um trem e cerca de 20 minutos depois, saltamos numa estação em que o Andreas (filho do Sven) nos aguardava de carro e de lá seguimos até Halmstad (já na Suécia). Optamos por essa rota pelo fato da cidade deles ser mais próxima de Copenhagen do que de Estocolmo.
Em Halmstad, a casa do Sven fica numa espécie de reserva ambiental ou parque ecológico, cercada por uma floresta, com espécies da mesma família do eucalipto do Brasil. Na área é possível caçar e pescar, desde que obedecido a temporada destinada para essa finalidade.
Comecei o planejamento para a minha primeira maratona em agosto de 2009. A intenção era comemorar meus 40 anos de vida, que ocorreria em 2010, e celebrar os resultados obtidos na busca de uma vida melhor.
Atendendo ao convite de amigos que moram na Suécia, resolvi fazer o desafio naquele país. Teria a oportunidade de aliar a vontade de correr com a alegria de viajar e escolhi a edição de 2010 da Maratona de Estocolmo.
A primeira iniciativa foi a criação deste blog, registrando em 19 de agosto de 2009 o primeiro post. A ideia era transformá-lo numa espécie de diário online para informar tudo que tivesse relação com a preparação para a maratona. Em outubro, cerca de oito meses antes do evento, consolidei a intenção e foi efetuada minha inscrição, através do Sven (amigo que mora na Suécia), dado a dificuldade com o idioma local.
Em janeiro de 2010, passei a treinar sob a orientação do maratonista e técnico Adriano Bastos, heptacampeão da Maratona da Disney. Segui uma rigorosa planilha de treinamento, que incluía corridas leves, moderadas e longas, “tiros” para adquirir velocidade e sessões de musculação.
Além disso, fui submetido a uma avaliação médica completa, com rigorosos exames para avaliar meu estado de saúde. Fiz o Sport Check-up do Hospital do Coração, em São Paulo. Passei por cardiologista, ortopedista, médico do esporte, preparador físico e nutricionista. Com a liberação médica prossegui com o treinamento.