Por Sérgio Xavier Filho

Os americanos se emocionam com “New York, New York” tocando na largada da Ponte Verrazano e com a chegada triunfal no Central Park. A Maratona de Berlim termina no Portão de Brandemburgo. Nós, brasileiros, não temos uma maratona forte, mas podemos encher o peito para falar da São Silvestre. É uma prova e tanto, tem tradição, o povo vai à rua torcer por anônimos. Quem não está em São Paulo liga a televisão, enquanto o peru do dia 31 está no forno, e torce pelo João, pelo josé João, pelo Emerson, pelo Marílson da vez.
A São Silvestre é um patrimônio cultural. Simboliza a virada do ano e a conciliação do cidadão com sua cidade. A cidade dos carros se rende aos pedestres. O percurso da prova é um componente do simbolismo. Largada na avenida Paulista, a avenida mais paulista da metrópole. Passeio pelo centro e pelo minhocão, o monstrengo arquitetônico que desafoga o trânsito. Subida pela Brigadeiro Luís Antonio, virada na plana avenida Paulista. Ali recebemos dos deuses da corrida um pulmão novo e a esperança. Cruzamos a linha de chegada com a certeza de que o ano seguinte será melhor.
A maior corrida brasileira quer ficar maior. A chegada coincide com os preparativos da festa do Réveillon na Paulista. Organizadores e poder público optaram pelo fácil: transferir a chegada para o Parque do Ibirapuera, palco de outras tantas provas. O fácil não é necessariamente o melhor. Em conversas com especialistas das mais diversas áreas, percebe-se que é possível conciliar chegada da São Silvestre com festa do Réveillon com algumas modificações na dispersão. Em um país que maltrata tanto suas tradições, seria um bom prenúncio para o futuro se conseguíssemos ao menos salvar essa. Quem já correu a São Silvestre sabe como é emocionante vencer a Brigadeiro, virar na Paulista e receber o incentivo de desconhecidos. Nesse momento, não há como não acreditar no país e em nós mesmos.

* Extraído da coluna Carta do Editor da revista Runner’s World, edição 37, mês de novembro.

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