Desabafo do heptacampeão da Maratona da Disney foi feito após ser selecionado para o exame antidoping da São Silvestre, mesmo tendo chegado apenas na 47a posição
No próximo dia 13 de janeiro, Adriano Bastos tentará recuperar o título da Maratona da Disney. Sete vezes campeão da disputa nos Estados Unidos, o maratonista amarga derrotas nos últimos dois anos para seu compatriota, Fredison Costa. O ‘Rei da Disney’ fez sua última prova no Brasil, a São Silvestre, no ultimo dia 31 de dezembro, em São Paulo, como preparação e sem intenção de brigar pelo pódio. No ‘treino de luxo’, terminou os 15 km apenas na 47ª posição, com o tempo de 50min35. Mesmo assim, acabou indicado para o exame antidoping, o que o revoltou.

Em sua página no Facebook, Bastos, 34 anos, disse que vem sofrendo uma perseguição em virtude de seus bons resultados. Na rede social, escreveu: “Sinceramente, ADOREI, pois mais uma vez vou provar que estou e sou totalmente limpo, para aqueles que falam tanta m**** de mim. Ainda mais nesta situação de uma prova onde eu era apenas mais um. Quem não deve não teme.”
Em 2012, Bastos participou de 38 provas oficiais, subiu ao pódio em 34 oportunidades e venceu 19 vezes. Dentre as competições, ele esteve em algumas maratonas como a da Disney, em janeiro, a Maratona de Porto Alegre, em junho, e prova do Rio de Janeiro, em julho, e os 42 km de Punta del Este e Florianópolis, em setembro. “Fiquei muito feliz em poder realizar mais uma vez este exame e agora estar aqui escrevendo e esfregando na cara daqueles que falam besteiras e calúnias de mim”, escreveu o corredor.
Ex-triatleta, Bastos alega ter genética favorável e uma recuperação pós-esforço acelerada. “Se isso não fosse algo normal e natural para mim, não viria fazendo desta forma simplesmente há 13 anos, pois nenhuma substância permite que um atleta fique no topo por tanto tempo”, conta o corredor, que em 2012 realizou cinco exames antidoping (1/4, na Meia Golden Four, em BH; 3/6, na Maratona de Porto Alegre, 8/7, na Maratona do Rio de Janeiro, 30/9, na Maratona de Santa Catarina e 31/12, na São Silvestre) . O resultado do exame da São Silvestre ainda não foi divulgado, mas o atleta testou negativo nos exames anteriores. “Conheço muito atleta que está tomando tudo e um pouco mais e que passa desapercebido, nunca são pegos para um antidoping. Eles sabem quem são estes atletas e não fazem nada. Estes atletas vivem ganhando provinha aqui e ali com (premiação) dinheiro, mas que nunca têm exame (antidoping) e também nunca entram em prova grande com antidoping. São caras que normalmente correm 10km para 32min e do nada aparecem correndo para 29min ou 30min”, prosseguiu Bastos, agora para a reportagem da RUNNER’S.
A suposta perseguição que agora o envolve teria começado, de acordo com o maratonista, depois que Fredison Costa foi questionado, também nas redes sociais, de ficar sumido ou machucado o ano inteiro e depois conquistado uma de suas melhores performances durante a Maratona da Disney, que não realiza exame antidoping. “Entro apenas nas provas menores (que não são, por exemplo, transmitidas pela TV Globo), nas quais tenho maior chance de aparecer no pódio e divulgar meus patrocinadores. Tudo é questão de como conduzo minha carreira. Para que vou à Pampulha ser o vigésimo alguma coisa ou no Circuito Caixa ser o décimo alguma coisa se no mesmo dia posso vencer uma Track&Field e aparecer muito mais para o público certo?”, comenta Bastos.
CBAt e os testes antidoping
Os testes de doping do atletismo são feitos pela ANAD (Agência Nacional Antidoping), criada pela CBAt em 2005 e homologada de acordo com as diretrizes estipuladas pela WADA (Agência Mundial Antidoping) e IAAF (Associação Internacional de Federações de Atletismo). Segundo o superintendente técnico da CBAt e membro da ANAD, Martinho Nobre dos Santos, para corridas de Rua Classe A – nacionais, como a São Silvestre, a norma indica que 10 atletas devem ser levados ao controle antidoping. “A responsabilidade pela condução do controle é da ANAD/CBAt, diretamente, com apoio dos organizadores. Quem faz a escolha é o Oficial de Controle de Doping (OCD)”, aponta Martinho.
A Norma 07, Anexo II, sobre o Controle de Doping, da CBAt, indica em seu item 3 que “a escolha dos atletas a serem controlados se dará por meio da classificação final da prova, em conformidade com critério a ser determinado entre a largada e a chegada pelo OCD (Oficial de Controle de Doping) e o Delegado Técnico da CBAt. Podem ser realizados um ou mais controles-alvo, se o OCD assim o desejar. Os critérios de escolha de atletas não serão divulgados.”
Durante a São Silvestre foram analisados os primeiros colocados (todos estrangeiros, tanto no masculino quanto no feminino, com exceção do brasileiro Giovani do Santos, 4º colocado, que fez o exame mas não consta na relação fornecida pela CBAt) e o corredor Adriano Bastos, o “estranho no ninho”. Os estrangeiros submetidos ao exame não aparecem na relação da CBAt por causa de um acordo internacional. Primeiramente, a IAAF e as federações desses atletas recebem as súmulas para o caso de algum teste positivo dos estrangeiros. Teoricamente, em provas como a SS, são analisados os cinco primeiros colocados (homens e mulheres) mas a decisão final cabe ao OCD, soberano no assunto. Os OCDs não dão entrevistas e a confederação não dá maiores detalhes sobre os critérios de escolha. “Normalmente, os OCDs escolhem os primeiros colocados e algum atleta do pelotão de trás”, se limita a explicar Martinho.
De acordo com o superintendente da CBAt, existe também o teste-alvo, após algum atleta ser denunciado quanto ao uso de doping. “Nesse caso, para evitar os boatos, fazemos o teste nesse atleta que foi denunciado. Acusações desse tipo já geraram, inclusive, brigas entre corredores antes da largada. Entretanto, esse não foi o caso do Adriano Bastos, não recebemos nenhuma denúncia a respeito dele.”
Martinho lembra que o teste a atletas registrados pela CBAt podem ser feitos a qualquer momento, mesmo em períodos de treino e fora de competição. “Faz parte da rotina deles. Imagine o Usain Bolt reclamar do exame antidoping. Quantos exames ela já fez na vida? O Adriano Bastos, como atleta profissional e experimentado também tem de estar preparado para esse tipo de situação”.
O técnico de atletismo Henrique Viana, chefe da equipe Pé de Vento, responsável pelo treinamento de Giovani dos Santos, concorda com o método de escolha. “Antigamente, analisava-se apenas os primeiros colocados e muitas vezes os atletas ‘dopados’ sabiam que deveriam chegar depois do quinto colocado, por exemplo, para não cair no doping. Então eles até entregavam uma posição, era muito fácil escapar.”
Da forma atual, qualquer corredor presente em uma prova com chancela da CBAt está sujeito a colher urina para a realização do antidoping, não existe a certeza de escapar do teste. “Por isso, o atleta precisa estar consciente da formulação de qualquer medicamento que for consumir e evitar a automedicação. Até a ‘Neosaldina’ contém uma substância que pode ser detectada como doping. O exame de doping não é previsível. Giovani ganhou na Pampulha e não foi testado, mas acabou fazendo o teste na São Silvestre, menos de um mês depois”, lembra Viana.
O baiano Giomar Pereira da Silva, pentacampeão do Ranking de Corredores, testado nove vezes no exame antidoping em 2012, não contesta os exames, mas acha estranho ou desnecessários testes seguidos, muito próximos um do outro ou de um atleta que chegou muito atrás em uma corrida, sem suspeitas fundamentadas. “Faz parte da rotina, convivermos com isso. A única coisa ruim, no meu caso, é que os resultados demoram cerca de três meses para serem divulgados e durante esse período fico sem receber a premiação das provas de que participo. A premiação é bloqueada até o resultado negativo ser divulgado”, afirma o atleta.
_________________________________________
Crédito da foto: Reprodução/Facebook.

Deixe o seu comentário!