Atendendo o convite de amigos que moram na Suécia, resolvi debutar na maratona de Estocolmo, que aconteceria no dia 05 de junho de 2010. Correr e viajar são uma combinação perfeita. Os eventos esportivos, principalmente de corridas são excelentes momentos de alegria, prazer e diversão. São oportunidades de aventuras, de conhecer outras pessoas, fazer amizades e fortalecer laços. São praticamente as únicas que se volta para casa mais leve, pesando menos e de bem com a vida.
Tinha idéia das dificuldades de uma preparação, mas diante da possibilidade de confrontar e testar mente e corpo, aos limites da exaustão, diante do fracasso e do colapso, tornava o desafio empolgante e poderia ser “tão maravilhoso quanto qualquer outra coisa que a vida tenha a oferecer”. Além disso, o gosto pelo trabalho árduo que traga prazer e diversão é um prêmio. Nos faz uma pessoa melhor, determinada, disciplinada e focada nos seus objetivos.
Completar 42 km de uma maratona pela primeira vez, traz conseqüências para o resto da vida. É algo que ninguém vai poder tirar de você. Nos mostra como somos fortes, joviais e dotados de uma coragem imensurável. Superar esse desafio nos traz, ainda, grandes benefícios na forma de confiança, disciplina e respeito próprio, atributos que nunca desaparecem, pois, são frutos de sua luta, determinação e coragem. Só os efeitos que provoca na mente e no espírito já justifica todo o esforço. Afinal, passamos a maior parte da vida duvidando de nós mesmos, de nossa capacidade, achando que não somos bons o suficiente e não fazemos nada certo. A maratona nos dá a oportunidade de encarar isso tudo. Tem a capacidade de nos fazer analisar a nossa própria essência e eliminar de vez todas as barreiras que atormentam a alma.
Por outro lado, é certo que a maratona nos expõe diante da possibilidade de derrota. Ela incorpora o espírito desmotivador, destrutivo e por vezes, desmoralizante, tão comum, que nos acompanha no dia-a-dia. Isso se faz presente quando as pessoas insistem em dizer que você não conseguirá; que é maluquice tentar. Elas zombam de você! Querem fazer acreditar que não somos capazes e que portanto, é inútil tentar.
Mesmo diante dessa avalanche negativa, você treina duro, dedica-se de corpo e alma; encara sacrifícios e supera as dificuldades que aparecem pelo caminho. Deposita confiança em si e com disciplina vai cumprindo as etapas de treinamento. Passa por privações, horas extenuantes de corridas longas; ouve palavras pejorativas, desmotivantes… E prossegue, vivendo sempre uma dia após o outro…
No dia da prova é possível ouvir aquela voz: “Desista! Você não vai conseguir!”, num coro que vai aumentando à medida que os quilômetros avançam. No km 25, uma câimbra insuportável e dores musculares imploram para que você pare. Mas você é persistente e continua. A voz continua e cada vez mais alta insiste que você deve parar. Você ignora e só ouve o que diz o seu coração. Com paixão coloca um pé à frente do outro e segue. Busca forças dentro de si e aos poucos, a paisagem vai ficando para trás.
A situação vai piorando a cada quilômetro, mas você encontra coragem para continuar firme, tentando, para não desistir, por mais dolorosas que as coisas se tornem. Quando se aproxima do final, o percurso já não importa, a visão está vaga e vacilante e o corpo oscila entre o cansaço e a superação.
Quando a linha de chegada floresce à sua frente, um nó se forma na garganta. O cansaço deu lugar a alegria. A mente se perde em pensamentos. Você abre a bandeira, que ali não representa não só sua pátria, mas a família, os amigos e todos aqueles que acreditaram que era possível. E você finalmente solta o grito: Sim, eu posso!
Sua alegria ao cruzar a linha de chegada é indescritível. Cheio de orgulho, você se livra do aprisionamento e das limitações impostas pelo treinamento e pelas incertezas. Aprendeu muito sobre você mesmo nos 42 km da maratona do que qualquer outro dia de sua vida. Você vai estar cansado com a musculatura dolorida, mal consegue levantar a cabeça, talvez tenha dificuldade para andar, mas saiba que “completar uma maratona é mais do que apenas algo que se ganha; um maratonista é alguém em que você se transforma”.
No futuro, nenhuma luta ou fracasso, pode remover o que acabou de realizar. Você fez o que poucos tiveram coragem de fazer ou nunca farão. E isso, é o que torna seu ato digno de ser inesquecível. Você será lembrado pelo resto da vida. O seu “sucesso na corrida tem pouco a ver com a velocidade ou com a eficiência e tudo a ver com a determinação absoluta e com um amor puro pela corrida. Não corra com as pernas. Corra com o coração”.