Por
Flavio Cavalcante
 
No último final de semana, com vários amigos do Foz
do Amazonas e outros grupos de corrida, participei de um concorrido evento
esportivo em homenagem à cidade de Belém, que completou 399 anos em 12 de
janeiro de 2015.
 
A corrida de 10 de quilômetros pela acolhedora
Cidade das Mangueiras, além de permitir uma agradável e divertida convivência
com os amigos, também se apresentou como uma oportunidade para encontrar e
conhecer outras pessoas com o mesmo viciante gosto pelo esporte de rua. E,
claro, serviu ainda para visitar espaços tradicionais da capital paraense, como
o Bar do Parque e o Mercado Ver-o-Peso.
 
Dessa vez, foi no histórico mercado, lugar que
abastece a cidade de gêneros alimentícios e ervas medicinais, que o grupo de
amigos de Macapá mais consumiu. Superou as compras nas lojas de roupas, tênis e
outros acessórios para corridas. No Ver-O-Peso, todos procuraram garrafadas com
produtos energéticos para melhorar o desempenho nas pistas.
 
Os corredores do Amapá foram atraídos para a famosa
barraca da “Socorro Lora”, que há quase 30 anos trabalha no mercado, sucedendo
gerações de erveiras de sua família.  Entre o grupo de atletas se
destacou o carismático Everaldo Romano Palheta, popularmente conhecido por
Kelé, com 64 anos, alfaiate aposentado.
 
Kelé
logo perguntou para a simpática dona da barraca se havia alguma garrafada,
algum fortificante, bom pra corrida. Socorro, desembaraçada vendedora, segurou
uma das garrafinhas penduradas feito cacho, olhou para o aposentado e falou:
 

Tenho aqui o óleo de bota, mano. É só passar no lugar certo que sua moral vai
subir de novo. Subir tanto que é a mulherada que vai correr atrás do senhor… 
 
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Texto extraído do blog Pedra de Clarianã (http://pedradeclariana.blogspot.com.br/)
O domingo do dia 19 de outubro de 2014 vai demorar a acabar.
Permanecerá por muito tempo em nossa memória. Começou cedo. Ainda na
madrugada um grupo de amigos se preparou para vestir seu uniforme e
seguir para a disputa. Uma disputa sem vencidos, somente vencedores.
O encontro para a largada ocorreu diante do imponente Teatro da Paz,
que, desde 1878, nos brinda com maravilhosos espetáculos. Quando a
acolhedora Cidade das Mangueiras acordava com os primeiros raios do sol,
milhares de corredores já percorriam
suas ruas e avenidas. O mesmo sagrado chão que uma semana antes recebera
as fervorosas pisadas de milhões de devotos de Nossa Senhora de Nazaré.

A festa foi completa. Houve bolo de aniversário e lágrimas de saudade
de um companheiro que não mais corre entre nós. Mas os dez quilômetros
de percurso não consumiram toda a energia. Sobrou animação suficiente
para festejar a vida e as vitórias pessoais no tradicional Bar do
Parque.

Valeu à pena cruzar a Foz do Amazonas para participar
mais uma vez da Corrida do Círio. E, quando chegou a hora de voltar pra
casa, a bagagem retornou com excesso de satisfação. Pois, para esse
grupo, correr significa bem mais do que acelerar o passo, representa
construir amizades e viver emoções positivas que o democrático e
viciante esporte de rua permite.

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Texto extraído do facebook de Flavio Cavalcante.

No exato momento em que início este post, falta 1 semana, 4 dias, 13 horas e 30 minutos para a Maratona de Berlim 2014. É dessa forma que já estou encarando o evento: contagem regressiva.
É praticamente certa a minha participação na prova. Em termos de estrutura, não falta mais nada. As passagens estão compradas, hospedagem paga e confirmada e inscrição realizada. Havia apenas a dúvida se o corpo suportaria as 8 semanas de treinamento, o que até o momento não posso reclamar.
Existe a ansiedade pré viagem, mas em relação aos 42 km já estou bem resolvido. É encarar como se fosse um passeio, se é que alguém passeia por uma distância tão longa. Com um período curto de treinamento, não tenho maiores ambições. Nem ouso estimar um tempo abaixo de 4 horas. Eu quero é correr em Berlim. E como sempre faço, quero curtir a viagem, passear, fazer novas amizades. Tudo isso, com muita, mas muita diversão. Esse é o espírito.

Se tinha um corredor que merecia estar na Meia Maratona do Rio de Janeiro era o Adonis Farias. Explico. Há mais de quatro meses, o Adonis havia me perguntado se dava para correr os 21 km da prova que fazia parte da Maratona do Rio de Janeiro, programada para julho. Tínhamos um pouco mais de dois meses para a preparação. Apesar de saber que ele estava disposto a correr o risco, consegui convencê-lo de que seria mais seguro encarar a Meia Maratona do Rio de Janeiro, programada para agosto, pois, teríamos mais tempo para dedicarmos aos treinamentos. Imediatamente, o Bob Fernandes se prontificou a acompanhá-lo no desafio, que seria a primeira prova de 21 km da dupla.

Adonis na Meia do Rio 2014
A cada semana, dava gosto de ver a dedicação dos dois. Estavam completamente comprometidos com os treinamentos. Segundas, quartas e sextas, estavam no Treino Funcional. Nas terças, quintas e sábados, cruzavam a cidade correndo de norte a sul. Um era a sombra do outro. Entretanto, em 3 de agosto, durante um passeio ciclístico, nosso amigo Bob foi brutalmente atingido por um carro conduzido por um motorista bêbado e veio a falecer.
Foi um duro golpe nas pretensões do Adonis. Seu “brother”, parceiro e companheiro de longa data, não estaria mais para acompanhá-lo e motivá-lo. Seu semblante refletia tristeza, revolta e indignação. Era visível que o guerreiro estava ferido. Nos treinos, a dedicação já não era a mesma. O desconforto muscular só não era maior do que a dor no coração. Para aliviar, substituímos algumas corridas pela bike. Quando sua desistência era dada como certa, ele nos incendeia esbravejando que nosso amigo Bob merecia essa homenagem. A motivação voltou. Os treinos se sucederam com a empolgação de antes.
Na véspera da prova, encaminhei um e-mail com algumas recomendações, por tratar-se de sua primeira meia maratona. Para incendiá-lo ainda mais, fechei a mensagem com o seguinte texto: “Meu amigo, além dos seus objetivos pessoais que foram traçados há meses, tem também uma motivação extra: a memória de nosso amigo Bob. Isso mesmo! Vocês estiveram juntos durante toda a preparação e no fatídico dia de sua morte. Na vida é difícil encontrarmos pessoas em quem podemos confiar e compartilhar os bons e maus momentos. Pode ter a certeza que o Bob estará ao seu lado, acompanhando-o durante todo o percurso. Ele lhe dará forças e com aquele jeitão desengonçado estará dizendo: “bora, guerreiro”. Por isso, desfrute da companhia dele e faça a prova de seus sonhos.“.
E de fato foi o que aconteceu. Essa foi a prova de sua vida. Em nome do Bob, da Nilda (esposa do Bob) e de todos nós, ficamos orgulhosos e lisonjeados com o gesto de amor, lealdade, amizade e carinho. Esse é o espírito que devemos cultivar no esporte e na vida. Valeu, guerreiro!
Não tem coisa mais chata do que confundirem a cor da sua camiseta de corrida com as cores de um partido ou de um político. Você acorda cedo, pega a camiseta preferida, aquela de tecido tecnológico, 100% poliamida que protege contra raios ultravioleta, e sai para praticar seu hobby. Nem liga para a cor, atenta apenas para o conforto. De repente, encontra esses grupos coloridos, com bandeiras, enfileirando-se nas calçadas e atrapalhando a passagem. Eis que começam a insinuar que a cor de sua camiseta tem tudo a ver com aquele grupo político, a tal ponto de ser interpretada como uma declaração antecipada de voto ou determinasse sua opção eleitoral.
 

A cor da camiseta não tem nada a ver com a cor de partido político
Ledo engano. Talvez a única comparação pertinente seria o mal cheiro que ambas exalam. Digo talvez, porque o mal cheiro do suor nas camisetas a tecnologia e um jeitnho doméstico já resolveram, enquanto que, na política… É melhor nem falar. Mas vamos combinar, essas cores não se misturam. O negócio é não dar ouvidos para esses “xingamentos”, para não interferir na sua corrida e nem no seu humor.
Lesão não combina com a vida de maratonista. Aliás, não combina com nenhum esporte, mas faz parte dele. Seja para quem pratica por lazer ou competição, de forma amadora ou profissional. Em algum momento de sua vida, você teve, tem ou terá uma lesão decorrente do esporte. Dependendo da atividade, há um núcleo comum e repetitivo de ocorrências que afetam seus praticantes. Nos corredores, por exemplo, os membros inferiores são os mais comprometidos. 
E quando essa lesão provem do seu dia a dia, sem estar ligada a prática desportiva? A dúvida passou a fazer a parte da minha rotina desde que fui acometido pela lombalgia. Independentemente do ângulo, a visão parece a mesma na ótica de pessimistas ou realistas: como pode ter acontecido isso com você que é um maratonista? 
A primeira coisa é pensar que maratonistas são super-homens e estão ilesos aos incidentes que acontecem na vida. É como se médico não pudesse ficar doente, pois sabe como evitar as doenças. Entretanto, acidentes acontecem e podem provocar traumas a ponto de deixá-lo impossibilitado de praticar seu esporte ou sua atividade laboral. Talvez, seja pouco comum contusões fora do esporte, haja vista ter sido a primeira vez em que fui acometido, mas não podemos excluir ninguém de ser afetado por esses eventos.
Aconteceu. É um fato. Agora é focar na reabilitação e só retornar ao esporte quando estiver seguro da recuperação. Voltar a correr sem estar devidamente curado é que não combina com o esporte.
Estou impossibilitado
de treinar, mas a minha capacidade de escrever posso exercer sem maiores
dificuldades. Bom para o blog. Por isso, vou aproveitar essa capacidade para
falar de minha incapacidade de treinar, ou melhor, dos efeitos da falta de
treino no organismo.
A primeira coisa é que existe um termo para expressar esse processo em que
os benefícios decorrentes do treinamento são perdidos. É o DESTREINO. Em geral,
a partir de um período de uma a duas semanas de inatividade, são suficientes para
perdas no condicionamento físico. Outros efeitos como perda da flexibilidade, diminuição do
ritmo no limiar de lactato, redução na concentração de glicogênio nos músculos
e atividade aeróbica da enzima, tem sido relatadas por especialistas.

Crédito da foto: Runners World Brasil
Há três
semanas de inatividade total, já posso perceber na pele, ou melhor, nas roupas,
alguns efeitos do destreino. Houve um aumento do peso corporal de pelo menos 2
kg. É possível também que tenha ocorrido a perda de massa muscular, uma vez que
permaneci cerca de duas semanas diretamente na cama, levantando-se apenas para
ir ao banheiro.
Mas a partir
dessa semana, o processo de destreinamento começa a ser minimizado. É que já
comecei a fisioterapia. A musculatura está completamente dolorida por conta dos
exercícios na piscina. Normalmente, treinos longos de corrida e as atividades do
treino funcional não acarretavam maiores transtornos.
Na próxima
semana, começo atividades de corrida na água e em agosto, retomo às atividades
normais do treinamento de corrida.
A corrida faz parte da minha vida. É uma paixão que já cultivo há mais de 15 anos. É porque comecei cedo aos 12 anos e segui até aos 17, quando tive que privilegiar os estudos. Depois, retomei a trajetória de atleta aos 32 anos e sigo até os dias atuais. Isso quer dizer que um terço da minha história foi forjada correndo e, literalmente, com muito suor. Não é por acaso que costumo dizer que minha praia é a rua, numa alusão a minha preferência por esse esporte.
Embora, continue pisando fundo e imprimindo velocidades dignas de uma multa de trânsito, isso só é possível no interior de um automóvel. É que fui traiçoeira e covardemente atacado pelas costas por uma lombalgia. Ela impede que eu faça qualquer atividade que gere impacto, como o ato de correr, longas caminhadas ou até musculação. A constatação é que a dor lombar levou por agua abaixo o planejamento, a planilha e toda a preparação para a Maratona de Berlim.

Por outro lado, essa água que lavou minha expectativa de estar firme e forte cumprindo os 42 km de Berlim é a mesma que me trouxe esperança de, pelo menos, percorrer a cidade em passeios. Todas as atividades foram transferidas para a piscina, seja a reabilitação, através do trabalho de fisioterapia, seja o treinamento de corrida. Migrei da terra para a água. Agora, posso dizer que a piscina é minha rua.
Até bem pouco tempo atrás, LOMBALGIA era uma palavra que não fazia parte do meu vocabulário. Para falar a verdade, nem sabia que existia, até ela entrar na minha vida de uma forma avassaladora. Agora, é a mais pronunciada. Pelo menos, falar não dói, por que vamos combinar, eita coisa dolorida essa tal de dor lombar. Te leva literalmente para a cama. E ficar deitado não combina com a rotina de um maratonista. Principalmente, quando você está focado cumprindo o treinamento visando a sua meta do segundo semestre. O fato é que, com toda a carga de treinamento que experimentamos, sofrer uma lesão quando você está descansando, parece até piada. Sem graça, por sinal. Mas o que me deixou mais abismado foi saber que, segundo a Organização Mundial da Saúde – OMS, cerca de 80% da população mundial já teve ou terá esse problema. No Brasil, quatro em cada cinco brasileiros tem ou terão uma dor na coluna digna de atenção médica e que o impossibilitará para o trabalho. Nos EUA, dados da International Study of the Lumbar Spine, dão conta que 31% das compensações trabalhistas pagas estão relacionadas com a coluna lombar, com custo social anual na casa de US$ 23 bilhões. Vixe! Dói também no bolso.
Há corredores que tem xodó por algumas provas. Não perdem de jeito nenhum. Cada um tem lá suas razões e não escondem de ninguém. Ao contrário, fazem questão de expressar sua predileção e marcar presença no dia, seja lá onde for o evento. No meu caso, os sinos dobram por ti, Corrida do Círio. Esclareço de antemão que não trata-se apenas de dez mil metros que devem ser vencidos
quilômetro a quilômetro. Tem um algo mais. Primeiro, a relação afetiva que cultivo com a cidade de Belém, local onde a prova é realizada. Ela faz
parte da minha história de vida, durante o início da carreira estudantil, na década de 1980. Correr pelas suas ruas que tantas vezes percorri de ônibus, faz rememorar os
momentos difíceis e de extrema dificuldade dessa época, mas também de celebrar
a superação de todas as barreiras. Segundo, há o
aspecto da religiosidade. Fiz uma
promessa/pedido, que cumpriria nessa prova [a Corrida do Círio é tradicional por reunir promesseiros e devotos de Nossa Senhora de Nazaré. Faz parte da programação do Círio de Nazaré, maior evento católico do mundo]. Pedi ajuda aos céus para iluminar
meu pai na sua luta na busca da cura de sua doença. Foi um momento difícil da vida, mas
que me fez perceber que sem fé não é possível sonhar e quem não sonha, não tem esperança.
E ter esperança, naquela ocasião, era a única forma de continuar sonhando com
dias melhores. Meu pai faleceu em 2009, mas sigo firme em respeito à sua
memória. Em 2014, completo uma década de fé, devoção e suor, que faço questão de badalar para todo mundo ouvir. E se me perguntarem por quem os sinos dobram, eles dobram por ti, Corrida do Círio.
Corrida do Círio 2006

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